Quando você descobre que é “senior”

Trabalho: no mundo Linkedin, todos os termos são em inglês. Esses significam que você é velha como a Madonna, a pop star “overqualified”.

 

É Nina Lemos na sua coluna TPM da revista TRIP que nos relata:

Eu estava na mesa do bar com três amigas. Todas gatas, gênias e trabalhadoras. Quarenta e poucos anos e mais de 20 de carreira cada. Sérias, queridas (e modestas). Respeitadas no mercado e carregando nas costas bronzeadas livros publicados, trabalho com os melhores fotógrafos, com os artistas mais fodas.

Tudo porque sim, ralamos, minha gente. Ralamos e sempre ralaremos. Tudo muito bem até que uma falou com olhos arregalados: “Estou em crise! Não aguento mais perder trabalho porque eu sou overqualified! Cansei. Overqualified é o cacete!”

Pronto. Crise instalada. Em poucos segundos nossa mesa civilizada virou um grupo de mulheres berrando. “Não aguento! O que é isso? E agora?”

No mundo do trabalho encapado pelo Linkedin, as expressões são em inglês. Overqualified significa muito qualificada. Ou melhor, qualificada demais. Era para ser bom, mas não é. Quando alguém diz isso para você basicamente significa: “Não tenho dinheiro pra te pagar porque vou ficar com vergonha do valor que estou oferecendo, por isso vou chamar alguém 20 anos mais jovem com dois meses de experiência.” Ou então: “Você é esperta demais para esse trabalho. Não vai achar que eu sou um jovem gênio e vai me desmascarar.”

 A pessoa pode também estar só querendo dizer, sem pegar mal, que você é velha. E sim, precisamos falar sobre ageism (termo em inglês que significa descriminação etária) na moda, no mercado de trabalho, nos relacionamentos, em tudo. Muito.

Bem, eu e minhas amigas continuamos rindo meio desesperadas do fato de termos virado sênior (outra expressão do mundo Linkedin, esse espaço que reduziria a Madonna a uma “pop star sênior over qualified”).

Ser sênior era para ser bom. Mas não. Nem para a Madonna, que agora é julgada por cada roupa ou dança que faz (e transforma isso em luta e política). Obrigada, Madonna, mas se não é bom nem pra você, imagina para a gente, reles mortais?

Verdade seja dita: no mercado do jornalismo e de outras coisas “de humanas” e forma geral, muitas vezes ser sênior significa apenas que você é velha. E, como tem muita experiência, não vai aceitar ganhar o mesmo que o filho da sua amiga que saiu da faculdade ontem.

“Mas as pessoas não vão se tocar que vale pagar mais pelo nosso trabalho por que temos  experiência?”, pergunta a amiga produtora cultural: “Não”, eu respondo. “Isso vai continuar sendo raridade.”

O que faremos com toda experiência acumulada? Vamos usar para nós mesmas, fazer novos projetos, continuar a mudar o mundo e rir muito ainda da cara dessa gente. Porque se somos overqualified, queridos, é porque a nossa qualidade principal, vocês nem sabem, é o humor.

Ps.: E se você está começando a trabalhar agora e é a pessoa de 20 anos que vai tirar trabalho da gente, saiba que esse texto não é contra você. Ao contrário. Porque um dia isso vai acontecer com você. É o mundo. É o capitalismo. Aceite. Ou mude.

Fonte: Revista Trip por Nina lemos em 24/10/2016 Imagem:

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