Samba também é um modo de envelhecer

Nei Lopes ao lado de Alexandre Kalache   Crédito: Gabriel Sabóia / CBN

 Nei Lopes cantor, compositor, escritor e estudioso das culturas africanas,, criticou a atuação da indústria do entretenimento no carnaval.

Para ouvir a participação de Nei Lopes no 50+CBN com Alexandre Kalache, Mara Luquet e Debora Freitas.do dia 18/02/2017, clik no link em azul  Nei Lopes no 50+CBN

Nei Braz Lopes, ou simplesmente Nei Lopes, é um compositor, cantor, escritor e estudioso das culturas africanas, no continente de origem e na Diáspora africana. Notabilizou-se como sambista, principalmente pela parceria com Wilson Moreira. Nasceu em  9 de maio de 1942 (74 anos), em Irajá/RJ
Aos 70 anos Nei Lopes lançaou três livros e se firmou como um dos maiores artistas e intelectuais do samba, aqui sua entrevista, nessa ocasião.

RIO – Nei Lopes diz que o samba é o elemento em comum entre os três livros que lançará no Parque das Ruínas, dentro da Festa Literária de Santa Teresa, a partir das 16h de sábado, quatro dias antes de completar 70 anos. Mas a afirmação beira o óbvio diante do fato de que o autor é um dos maiores nomes do samba, como compositor e como pensador. O que os três livros da editora Pallas reforçam é seu papel como historiador de manifestações e tradições que estão distantes das hegemonias culturais, sociais e geográficas do Rio e do Brasil. Ao ampliar sua obra, que se aproxima dos 30 títulos, Nei se firma como artista e intelectual interessado nos avessos do país.

O romance “A lua triste descamba” tem como universo os primórdios do samba, sobretudo em Madureira, entre os anos 1920 e 40. É a segunda etapa de uma trilogia iniciada com “Mandingas da mulata velha na Cidade Nova” (2009), que se passava na década de 1910. O “Dicionário da hinterlândia carioca” traça um painel do subúrbio, sistematizando as informações que o divertido “Guimbaustrilho e outros mistérios suburbanos” (2001) transmitiu em forma de crônica. E a edição ampliada do “Novo dicionário banto do Brasil” é o mais recente capítulo das pesquisas etimológicas de Nei, sempre voltadas para as línguas africanas.

— Sei que pode parecer afirmação pretensiosa, mas não é, é constatação: Lima Barreto disse que um dia escreveria a história do negro no Brasil, e de certa forma eu já fiz isso; Machado de Assis, no “Memorial de Aires”, disse que estava para se escrever a história do subúrbio carioca, e eu já fiz também. Não que tivesse tomado essas coisas como missão. Foram a curtição e a vivência desses ambientes que me levaram a isso. Tenho feito tudo com sentimento — afirma Nei.

Imagem de ranzinza

Ele se formou advogado em 1966, exercendo a profissão até 1972, quando passou a viver de música. Não fez mestrado e doutorado, tendo construído uma carreira de pesquisador à margem de títulos e elogios acadêmicos. Só recentemente começou a ser respeitado por núcleos de intelectuais que trabalham em áreas próximas às dele.

— A academia é muito corporativista, mas isso está acabando. Ainda mais agora, com a decisão do Supremo — diz, referindo-se ao reconhecimento da constitucionalidade das cotas raciais nas universidades, motivo de óbvio contentamento para ele. — Foi desconstruído todo um edifício de argumentos.

Seus argumentos demoraram a ganhar consistência e só se solidificaram a partir do empurrão de uma tragédia. Nei diz que, na década de 1970, estava preocupado em sobreviver e fazer música. Compôs muitos sucessos, principalmente com Wilson Moreira: “Senhora liberdade”, “Goiabada cascão”, “Coisa da antiga”, “Gostoso veneno”, “Gotas de veneno”. E combinou arte e militância seguindo Candeia no centro de cultura negra e escola de samba Quilombo. Mas foi em 1981, quando seu filho Brício morreu afogado aos 4 anos, que a grande virada se deu.

— Pensaram: “Esse cara vai desbundar.” Mas mudei para melhor. Comecei a estudar mais, escrever, pensar. E, depois, veio a religião para dar o suporte. Tive a oportunidade rara de conhecer em Cuba a vertente da religião afro-americana que embasa tudo, que é o fundamento. Isso me ajudou a superar a perda e a organizar a vida — conta ele, pai de outro filho e avô de dois netos.

Com os estudos, os escritos e os pensamentos veio a imagem pública de ranzinza, polemista em assuntos como racismo, cotas e cultura pop. É uma imagem que não se encaixa nas suas letras de música, quase sempre divertidas, cheias de malandragem, breques, gírias e gafieiras, como “Tempo do Dondon” e “Baile no Elite”.

— Construíram para mim uma persona que não é verdadeira. Sou bem-humorado, meu estado de espírito normal é a sátira, a brincadeira, a crônica. Mas tem hora de falar sério também. Quando se consegue falar de coisa séria parecendo que é sacanagem, melhor — diverte-se.

Nei é o caçula de 13 irmãos de uma ampla e tradicional família do Irajá — bairro que homenageou em seu “Samba do Irajá” (“É isso aí! Ê Irajá/ Meu samba é a única coisa que eu posso te dar”). Viveu e ouviu inúmeras histórias suburbanas, do Méier à antiga Zona Rural. Procurou organizá-las no “Dicionário da hinterlândia carioca” — hinterlândia é um termo das ciências sociais para definir áreas geográficas do interior. A Festa da Penha, a Fera da Penha, a Noivinha da Pavuna, os clubes de futebol, as escolas de samba, muita coisa está nos verbetes.

— Acho que o livro pode dar pé por causa do momento atual da cultura carioca, de visibilidade para esse outro lado — aposta.

Nei vive desde 2000 para além do outro lado. Decidiu morar em Seropédica, Baixada Fluminense. A mudança de Vila Isabel, onde diz que era “muito solicitado para farra”, para um lugar isolado influiu decisivamente no aumento de sua produção literária (“Brinco que não tenho o que fazer, então escrevo bobagens”) e num olhar crítico sobre o Rio.

— Tudo aqui é mais difícil — atesta, num dia de chuva forte e telefone mudo, na varanda de casa. — As carências estabelecem um comparativo. Tenho uma visão melhor da realidade, sem o oba oba do carioca.

Não se espere dele empolgação com o suposto bom momento do samba. Embora ressalte não ter a fórmula para transformar o micro em macro, aponta que “a Lapa não gera o disco que poderia tocar no rádio, estar na TV e criar uma cadeia de produção, como os sertanejos”.

— Dizem que o samba tem mídia, mas não tem. Você liga o rádio e praticamente não ouve. Não é dada ao samba a importância que ele merece. O país é extremamente colonizado em termos culturais. As pessoas não percebem como é feia essa dependência. É o cara sempre voltado para o exterior, não olhando para as coisas daqui — toca Nei num ponto em que não consegue coro de muitos artistas.

Fora das escolas de samba

Do Salgueiro — de onde participou, como componente de ala e depois compositor, entre 1963 e 1989 — e do ambiente das escolas de samba, ele se afastou por vê-las distantes do sentido civilizatório que havia em sua origem, quando punham no centro da cidade (nos sentidos físico e metafórico) expressões e personagens que habitualmente estavam à margem. São essas expressões e esses personagens que ganham destaque em seus livros, como “A lua triste descamba”, no qual figuras como Juvenal e Mário de Madureira são colagens de pessoas que realmente existiram.

— Cada núcleo fundador de escola de samba tem sua história a ser contada. Por exemplo: quem foi Claudionor, da Portela? Dizem que foi o maior passista do samba no tempo em que não existia passista. A mitologia e o repertório dessas pessoas vão se perdendo. Para mim, é mais confortável, menos questionável e mais livre tratar disso como ficção — aponta Nei, que retirou o título do romance de um verso de sua tia Zica, lendária portelense.

Ele começa a preparar um livro que abordará esses temas não pelo viés da ficção. Será um “Dicionário histórico e crítico do samba” (nome provisório). E fechará a trilogia ficcional com uma história ambientada nos anos 1950, mais uma vez com negros como protagonistas.

Antes, no entanto, o autor de cerca de 700 composições vai comemorar 70 anos também com samba. Em 27 de maio, autografa os três novos livros numa festa musical no Candongueiro, em Niterói. A gravadora Fina Flor lançará até julho “Samba de fundamento”, seleção feita por ele de faixas de seus dois últimos CDs, “Partido ao cubo” e “Chutando o balde”. E, se o projeto tiver os recursos necessários, gravará um disco com a orquestra paulistana Heartbreakers, de Guga Stroeter, cantando sucessos do chamado pagode de fundo de quintal (Almir Guineto, Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila etc.) em roupagem de gala.   Fonte
https://youtu.be/9s8R6gL83vs

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