MISERICÓRDIA E VIDA ACADÊMICA

Será a misericórdia o futuro da humanidade e de nosso longeviver?

Comentário do Blog: Em novembro de 2016, por ocasião do lançamento do livro Misericórdia e Vida Acadêmica a professora Vera Brandão escreveu este artigo que acredito  nos dá motivos para muito pensar, analisar e agir. Por isso mesmo com uma atualidade, diria, de longa permanência.  

Esta publicação marca a comemoração dos 70 anos de dedicação da Universidade à educação superior, em um momento de crise mundial na qual o esgotamento da terra e das relações é prevalente. O documento papal surge como ponto de esperança e luz que a universidade pretende expandir. Respondendo ao chamado o Programa de Estudos Pós Graduados em Gerontologia colabora com a reflexão Misericórdia e Velhice, como panorama os instigantes desafios socioeconômicos e políticos, geradores de desigualdades e sofrimentos.

Foi realizado no último dia 16 de novembro, na Capela da PUC-SP, o lançamento do livro Misericórdia e Vida Acadêmica, que teve como origem a proclamação, em abril de 2015, pelo Papa Francisco do Ano Extraordinário da Misericórdia. Como indica a apresentação da obra o Conselho Universitário da PUC-SP, “reconhecendo a universalidade do chamado papal, convida os docentes das diferentes faculdades da Universidade a participarem efetivamente do Ano Jubilar, publicando as reflexões que aliassem a área epistemológica de produção intelectual com a temática da misericórdia, olhando com compaixão as necessidades e as potencialidades de nossa comunidade interna e externa”.
Esta publicação também marca a comemoração dos 70 anos de dedicação da Universidade à educação superior, em um momento de crise mundial na qual o esgotamento da terra e das relações é prevalente. O documento papal, nos exortando a misericórdia, surge como ponto de esperança e luz que a universidade pretende expandir.
Respondendo ao chamado o Programa de Estudos Pós Graduados em Gerontologia, desta Universidade, colabora com a reflexão Misericórdia e Velhice, realizada por Beltrina Côrte, Ruth Lopes e Vera Brandão. Essa reflexão teve como panorama os instigantes desafios socioeconômicos e políticos, geradores de desigualdades e sofrimentos, no qual o texto, inspirado na Bula de Proclamação do Jubileu da Misericórdia, tem como propósito guiar as reflexões sobre a complexidade da velhice, momento da vida que mostra a face dos que chegando ao final da trajetória esperam e merecem tratamento digno e fraterno para o qual a Misericórdia “é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida”, como nos indica o Papa Francisco (2015).
No “saber cuidar” para uma velhice digna deveriam estar entrelaçadas a misericórdia corporal – melhor qualidade de saúde; e a misericórdia espiritual – ensinar, aconselhar, consolar, perdoar, suportar com paciência, e pedir a Deus por todos os que sofrem, como nos inspira a Bula Papal.
Ao final da jornada a solidão, a angústia ante a consciência do fim inevitável, geradas pelas fragilidades e doenças, é o momento da misericórdia, no qual devemos nos despir das “coisas do mundo” na busca de entendimento de si e do outro, e do complexo fenômeno que é a vida humana. É o momento de superar a discórdia e fazer a experiência do perdão “uma força que ressuscita para nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança” (Papa Francisco, 2015).
Os difíceis exercícios de compaixão, perdão e misericórdia não deveriam ser feitos apenas no “ajuste de contas” final, mas de forma frequente como um exercício espiritual. Esse desafio parece inatingível no mundo de tempo acelerado e de consumo, mas pensemos aqui como educadores: Que pessoas se quer formar? Que valores transmitir? Além da formação técnica e acadêmica para o trabalho, como formar para a Vida plena?
A resposta nos conduz aos caminhos filosóficos e espirituais do “percurso do reconhecimento” – reconhecer-nos e reconhecer os outros como irmãos na jornada humana. Ricouer (2006) propõe esse percurso:
Reconhecer como identificação – tempo e lugar de pertinência familiar e sociocultural, raiz da espiritualidade; Reconhecer-se a si mesmo – em meio às diferentes experiências do que viveu, se apropriou e construiu “seu” universo de valores, dentre os quais se mostra a aceitação, transformação ou recusa de princípios espirituais; Reconhecimento mútuo – na possibilidade de abertura ao diálogo-partilha, como um dom de si, no sentido das solidariedades mútuas, integradoras de sentidos e expressões espirituais. Nesse percurso sugerimos reconhecer a bondade e misericórdia Divina; reconhecer as fraquezas humanas, minhas e de outros e perdoar, momentos de pacificação ao final do ciclo de vida.
Nesse percurso de reconhecimentos pela fala, escuta e partilha – identificações e compreensões solidárias – estabelecemos um “compromisso de reciprocidade” e a passagem do uso do termo reconhecer da voz ativa – eu reconheço – para a voz passiva – eu sou reconhecido. Ação recíproca de identidades construídas nas relações de alteridade – eu reconheço e sou reconhecido – e, retribuindo o dom do reconhecimento, reconheço o outro, o que nos coloca no caminho do perdão, da solidariedade, e da gratidão – hóspede inesperada na morada dos sentidos do reconhecimento – em um “movimento de retorno, espontâneo, gracioso, em todos os sentidos da palavra” (Ricouer, 2006, p. 19).
Devemos nos preparar e abrir para esse percurso como indivíduos e profissionais: partimos ou testemunhamos a partida, momento de despojamento das vaidades para o encontro da verdade que esta além da materialidade do corpo. Durante toda a vida e especialmente no momento da fragilidade da velhice “a misericórdia torna-se […] elemento indispensável para dar forma às relações mútuas entre os homens, em espírito do mais profundo respeito por aquilo que é humano e pela fraternidade recíproca” (Papa Francisco, 2015).
Será a misericórdia o futuro da humanidade e de nosso longeviver?
Referências
SS PAPA FRANCISCO. Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. 2015. w2.vatican.va/…/papa-francesco_bolla_20150411_mi
RICOUER, P. Percurso do Reconhecimento. São Paulo: Loyola, 2006.
(*)Vera Brandão – Doutora em Ciências Sociais – Antropologia PUC/SP. Pós-doutorado em Gerontologia Social PUC/SP. Pesquisadora do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento – NEPE – do Programa de Estudos Pós Graduados em Gerontologia PUC/SP. Coeditora da Revista Portal de Divulgação. E-mail: veratordinobrandao@hotmail.com

Fonte: portaldoenvelhecimento.com

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