Duas no espelho – um diário sobre o envelhecimento

Como foi o processo de criação

Comentário do Blog: Dalva Soares Bolognini é paulistana, mãe e avó. Graduada em Comunicação Social, formada em folclore brasileiro e pós-graduada em Museologia. Associada ao Slow Food São Paulo e à Associação Nacional dos Profissionais de História – ANPUH. É Dalva que nos conta como foi o processo de decisão de publicar  Duas no espelho onde registra, em forma de diário,  a sua relação com a mãe já idosa, morando na mesma casa. Dalva, também,  tem um Blog que se chama O ponto do doce e está em http://opontododoce24x7.blogspot.com.br/.

Historicamente os diários existiram principalmente entre religiosos e viajantes, como escrita confessional ou para registrar os acontecimentos das longas travessias. Foi se popularizando à medida que o conhecimento das letras alcançava pessoas de todas as camadas sociais. Há diários muito conhecidos, transformados em filme de cinema ou TV, como O Diário de Anne Frank ou a recente minissérie sobre a vida da compositora e cantora Maysa.
Este surgiu da oportunidade de escrever durante o mini-curso “Diário como estilo literário”, ministrado em 2004 pela Profª Marlene Bilenski no âmbito do Laboratório de Redação do Museu Lasar Segall. Programado como oficina, o curso propunha trechos do conhecimento teórico associados à prática imediata.
Assim, a primeira sensação que surgiu em mim foi a angústia de ter-me tornado responsável por minha mãe, com quase 90 anos, que já vivia em minha casa há 5 e que ficava cada vez mais exigente e manipuladora.
Incentivada a continuar com esse diário que se apresentava temático, tratando na intimidade familiar de um assunto cada vez mais discutido – o envelhecimento, fui me animando com as narrativas do cotidiano que se revelava mais e mais difícil. Escrever o diário passou a ser uma válvula de escape para o estresse da relação com minha mãe.
Aprendi também a me colocar, descrevendo os lugares que frequento e um pouco da minha visão da cidade de São Paulo no transcorrer das estações do ano. Em março de 2006 interrompi a escrita que se encaminhava para cenas repetitivas, para voltar ao tema somente em maio de 2009, depois do falecimento dela com 94 anos.
Nessa jornada refleti muito sobre a realidade do envelhecimento e da moradia. No Brasil, estamos vivendo as primeiras experiências de vida prolongada. Somos agora 15% da população e dentro de 20 anos seremos 30%.
Será que estamos preparados para viver tanto?
E para cuidar dos que ultrapassam os 90, talvez 95 anos de idade?
Em que condições viveremos?
Ficaremos sempre dependendo dos mais novos, que nessas circunstâncias também já estarão envelhecendo?
Não tenho respostas. Tenho apenas sugestões que podem se transformar em ideias possíveis.

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