O canteiro dos sonhos de Angela Lago vive em nossos corações – Parte 1

Na bucólica paisagem de Biribiri/MG, Angela mantinha rotina criativa, tomava banhos diários de cachoeira e ainda encontrava tempo para aprender a dirigir (foto: TÚLIO SANTOS/EM/D.A PRESS)

Peço licença a Juraci Vieira Gutierres para invadir o blog “Viva a Velhice” e postar um texto sobre a morte da ilustradora Angela Lago, estrela de primeira grandeza na literatura infanto-juvenil. Estava sem lugar dentro de mim ou para publicar um texto sobre o choque com a partida de Angela Lago. Pois o meu blog “Novos Velhos” está fora do ar por problemas técnicos – e minhas emoções enlouquecidas por estar perdendo pessoas essenciais. Juraci prontamente me cedeu espaço no “Viva a Velhice”. Déa Januzzi

Ainda embriagada com a morte de Ângela Lago, decidi. Não vou falar da ilustradora de Cântico dos Cânticos. Nem das mais de 40 obras-primas dessa autora/ilustradora. Quero falar dessa mulher incrível que passei a acompanhar nas redes sociais a partir do momento em que decidiu se mudar de Belo Horizonte para Biribiri, um vilarejo de 35 casas, a 12 quilômetros de Diamantina.

Angela Lago já havia passado por vários lugares, Estados Unidos, Venezuela, Escócia e, claro, Belo Horizonte, a cidade onde nasceu. “Tenho muito apego a BH, mas nem tenho mais uma base fixa lá. Minas é toda da gente. Em Biribiri estou apaixonada. Aqui é muito mineiro. Tenho a sensação de que é uma escolha definitiva”.

Quando comprou a casa de número 14 da vila, teve que reformar a parte elétrica, pintar, fazer alguns reparos e durante esse tempo acabou morando na única pousada do bucólico lugarejo. Depois de reformada, ela se instalou na casa e escrevia assim, em fevereiro de 2014, lá do seu front: “Estou morando na casa 14, a carta da Temperança no Tarô, virtude que sempre me faltou. Quem sabe aprendo a justa medida agora que o Sol se põe. Biribiri é pura paz entre pedras bruscas e água que corre. Estranho que o barulho dos pedreiros que reconstroem as casas da vila seja um som miúdo. É que ele se espalha e se confunde com um silêncio que atravessa tudo…”

“Conheci Sãozinha, nome que me alegra escrever com S. É uma senhora bonita, de cabelos grisalhos cobertos com um lenço branco. Tem um canto do lado de fora do seu restaurante que uma rede de celular pega. Não é a minha. Tomei uma cerveja e ela fritou pasteis. Falamos da vida em Biribiri, do salão onde as moças da antiga fábrica namoravam, e de telhados a refazer. As galinhas ciscavam ao redor. Fui conhecer a cozinha. É grande, o telhado alto com as madeiras e telhas à vista. O fogão de lenha está sempre aceso. Acho que já tenho uma amiga aqui”.

A rotina de Angela em Biribiri iluminava os meus dias e sonhos de uma vida assim. Prestava atenção em todas as suas postagens. Ela passou a ser um modelo para mim. Tinha mais de 60 anos quando mudou totalmente a vida, com coragem, ousadia, energia, vigor. Ela era a cara dos novos velhos, que estavam promovendo uma revolução no jeito de envelhecer. Fiquei doidinha para entrevistá-la, porque ela também dominava a tecnologia como qualquer jovem. Seus desenhos nasciam, tomavam forma e ganhavam o mundo no computador. Mas com a natureza na porta da casa de número 14.

Todos os dias, eu esperava notícias do lado de lá. A rotina de Angela Lago me dava um doce sabor de liberdade, – e eu pensava: “Será que ela tem filhos? Que se planejou para o envelhecer? Será que ela vai ser feliz? Que ela não vai se arrepender? Será que ela, uma mulher tão urbana, vai dar conta de morar em uma pequena vila?” Ela mandava notícias de que estava bem. Trabalhava até às 17h e depois saía para caminhar. No meio do caminho sempre tinha uma cachoeira. “Tem uma muito próxima daqui, a do Escorregador. Dá uma renovada, não é?

O interessante é que o cenário daqui vai mudando e é sempre surpreendente. Ainda não conheço todas as florações do cerrado. Tudo me encanta. As flores, as pedras, a quantidade de água, a vegetação. Nos fins de semana, trabalho com jardinagem”. Ia divulgando fotos de flores, de pedras, de bichos e de cachoeiras. Eu podia ouvir o silêncio do lado de cá. Um silêncio de água correndo, de vento nas árvores. Podia sentir o cheiro de mato, de vida, da criatividade de Angela Lago florescendo, do talento sendo lapidado.

Aos 65 anos, comprou um Fiat Uno e aprendeu a dirigir, pois queria ter liberdade de ir e vir. E eu que nunca me preocupei em aprender a dirigir, bati palmas para essa mulher que não teve filhos, mas gestou livros que encantavam a todas as idades, mas principalmente altamente recomendáveis para crianças. Separada, ela não tinha medo da solidão nem de envelhecer. Nem de mudar tudo. Alma cigana, ela ia desbravando tudo, e transformava a vida dela sem medo. Com a coragem que só as mulheres sábias exibem com majestade. Seu contato com a família e os amigos se dava por meio de visitas, pela internet ou pelo celular, mas apenas uma operadora dava sinal de vida no distrito. “Nem tenho televisão e me mantenho informada pelos sites. Adoro ler. Mas gosto também de ficar isolada. E de ficar comigo mesma. Não me queixo. Sou uma boa companhia para mim”.

Do lado de cá, sentia calafrios. Em BH, a vida também já não me atendia. Depois que deixei o emprego formal e que meus projetos não se concretizaram, tive preguiça da cidade em que nasci. O que fazer? Como fazer? Até que Angela Lago postou o anúncio de venda da casa de Biribiri. Conversamos por mensagem. Ela queria 200 mil à vista, preço fora das minhas possibilidades.

Completamente perdida em BH, aceitei a sugestão do meu filho de mudarmos para a Serra do Cipó. Em outubro de 2016 juntamos alguma coisa, desapegamos de outras, mas nunca dos livros, dos Lps e dos quadros. A gente não tinha muito, mas fizemos uma limpeza geral em tralhas, em objetos inúteis, conservando lembranças, afetos e mimos. Pela primeira vez na vida, depois de inúmeras mudanças, encontramos uma casa pintada da cor laranja. Pensei estar morando dentro de um poema de Adélia Prado, cujo pai certa vez pintou a morada da mesma cor e por muito tempo a poeta morou numa casa sempre amanhecendo.

Tudo estranhamente diferente da vida urbana. Insetos que nunca tinha visto. Calangos perambulando pela casa, besouros pendurados no lustre, ruas de pedras, sem asfalto, sem iluminação a exigir lanternas, tombos, olhos de lince, apertos, desencontros, sapos com nome de Jeremias, gatos de olhos azuis na varanda da casa, galinhas do vizinho ciscando no meu quintal. E eu a pensar o que faria com as minhas roupas urbanas, com meus sapatos de marca, com as mil bijuterias, num lugar em que os nativos andam de short e de sandálias de dedos.

Cachoeira do escorregador/imagem Pinterest  Continua na Parte 2

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