O canteiro dos sonhos de Angela Lago vive em nossos corações – Parte 2

Andei de um lado para o outro sem acreditar. Repassei todas as mensagens dela, li e reli. Senti vontade de sair correndo em direção a Belo Horizonte para dizer à Angela Lago: “Obrigada por me ensinar que sonhos não morrem”. Prometo a você, Angela Lago, que vou continuar regando o canteiro de sonhos que você plantou.

Continuação da Parte 1 da homenagem de Déa Januzzi para Angela Lago

Intervalo – Levei tempos para conseguir a internet local, cara, de fibra ótica, até que a vida ficou novamente ligada à tecnologia e pude reencontrar Ângela Lago. Não é que ela havia também se mudado para a Serra do Cipó? Numa chácara de 5 mil metros quadrados, que ela reformou toda, outra vez. Estava enfrentando os mesmos problemas de conexão com outros mundos. Ligada às estações da vida, Angela Lago postava fotos de ipês, das tempestades da Serra do Epinhaço, violentas, exageradas, viscerais, mas sem os dramas urbanos que derrubam barracos, que encharcam vidas.

Até que um dia, a postagem de que tinha caído ao brincar com seu cachorro, que fraturou o fêmur e passou dificuldade em buscar ajuda médica, pois vivia sozinha. Estava vendendo a chácara, pois queria voltar para o seu apartamento na Savassi. Aplaudi, porque também estou envelhecendo, e do lado de cá correndo contra a minha própria natureza que exige certos cuidados, como uma rede de apoio comunitário, repúblicas compartilhadas com amigos.

 

A queda expôs toda a sua fragilidade de estar envelhecendo sozinha. Então, ela postou uma espécie de anúncio nas redes sociais: “Resolvi vender minha chácara na Serra do Cipó, depois de quebrar uma perna e passar um certo aperto, pois moro sozinha. Quem se interessar por favor entre em contato com o corretor. O terreno tem 5 mil metros de mata. Lindas árvores quase todas de alto porte. Jatobás, Braúnas, Ipês, entre outras”.

 

Fotos da publicação de Angela Lago, no Facebook, do seu cantinho na Serra do Cipó.

Aos 71 anos, levantava a bandeira do envelhecimento ativo: “A gente envelhece sim. Dá para assumir isso com coragem. E alguma alegria. Junto com os movimentos libertários, como o feminista, o LGBTS e outros acho que calharia bem o movimento pelo direito à velhice.” Mulher que dizia coisas assim. “Com o envelhecimento acho que a gente perde muita coisa, é claro, porém ganha também. Mas vamos ficando mais livres, mais soltos, com menos compromissos e com um tempo maior para usufruir a vida. Sem correria. E o importante é continuar produzindo. Trabalhar é muito prazeroso quando é realmente o seu desejo”.

Pelo direito de envelhecer, ela pediu ajuda à sua amiga e arquiteta Du Leal um novo projeto para o apartamento na Savassi. Foi morar com a irmã em BH até se recuperar da fratura. E postava mensagens que me apaixonavam: “Sonhando um lugarzinho para seguir envelhecendo gentilmente e que a arquiteta Du Leal vai desenhar”.

A nova morada seria com madeira, que é “uma coisa viva, calorosa, e agradável ao tato. Uma porta que se abra com um número, para os amigos. Ou faço algumas cópias e dou a chave mesmo e também o controle da garagem, com a minha vaga fulustreca livre, que eles podem precisar para deixar o carro na Savassi. E que subam um minutinho para qualquer coisa, tomar um copo de água, ir ao banheiro, me contar um segredo. Todo o silêncio que as janelas acústicas podem proporcionar e que me ajudarão a sobreviver na cidade. Algum verde perto da janela”.

Angela Lago queria também “uma cama extra, feito tem em quarto de criança, para o amigo que precise ou queira ficar. Uma cozinha bem prática e pequena, com tudo à mão e a vista para mim e para os amigos. Um banheiro com o chão rebaixado e nada escorregadio na parte do chuveiro, sem vidros nem blindex. Com apoios fortes na parede e uma mesa de madeira para a pia e o vaso de flor. Espaço entre os móveis, o que significa ter poucos, já que o apartamento é pequeno. E adaptar uma cestinha de bicicleta no andador para, enquanto ou quando precisar, facilitar carregar livro, tablet. Quem sabe uma cestinha bem segura onde possa ir até a xícara e a garrafa bem fechada de café?

Não preciso mais de portas, além da porta de entrada. Se for de todo necessário, que seja porta de correr. Menos tudo. Incluindo roupa, copos desnecessários, papéis. Nenhuma estante muito baixa, nem alta. Duas prateleiras, no máximo três, todas fáceis de alcançar. Pouco e bem escolhido é sempre mais bonito, eis um ditado que acabo de inventar.”

Quer casa mais acolhedora do que essa de Ângela Lago? E eu, aqui do meu front na Serra do Cipó, encantada com essa nova proposta dela, pois também estou tentando fazer o caminho de volta. Ela era a minha inspiração do envelhecimento ativo, mas sem modismos desnecessários, sem botox na alma, sem cirurgia plástica no coração, sem alardes. Ela deixou os cabelos se cobrirem de branco sem afetação, sem anunciar para o mundo e para as amigas. Simplesmente não pintou mais. Estava cada dia mais bonita, inteira, mais poeta, mais espiritualizada, frequentadora assídua do templo sagrado da natureza. Até que acordei no domingo, dia 22 de outubro, com a notícia de sua morte por embolia pulmonar.

Andei de um lado para o outro sem acreditar. Repassei todas as mensagens dela, li e reli. Senti vontade de sair correndo em direção a Belo Horizonte para dizer à Angela Lago: “Obrigada por me ensinar que sonhos não morrem”. Prometo a você, Angela Lago, que vou continuar regando o canteiro de sonhos que você plantou.

Foto: conexaojornalismo.com.br

10 thoughts on “O canteiro dos sonhos de Angela Lago vive em nossos corações – Parte 2

  1. Querida Dea
    Como sempre vc eternizando com lindas palavras suas amigas do coração!
    Que notícia triste mas fico pensando que uma artista tão bela e um ser tão especial estará com certeza na luz e seus rastros continuarão
    aqui com todos nós!
    Linda homenagem!

  2. Déa,
    Sua sensibilidade está cada vez mais ativa. Não sabia da Ângela e me emocionei com sua linda homenagem.
    Ainda bem que o envelhecimento nos trás os caminhos dos bons textos, das singelas homenagens. Da alegria pura e simples.
    Abs

  3. Déa, (através da gentileza de Juraci)
    No domingo pensei muito nessa perda, que com certeza muito atingiria você…é que estamos sempre adiando nossos sonhos e contando que teremos tempo para viver tudo que queremos. Eu já havia visto aquela linda forma de comunicar sobre a nova moradia, que Angela publicou para os amigos no dia 12 de outubro e então já copiara para fazer um power point e enviar prá você. No domingo quando vi a noticia fiquei até a madrugada de segunda feira terminando minha criação e acho que ficou muito delicada e enviei em seu email, mas acho que você não viu e então vim aqui falar com voce. Fiquei imaginando que transformaria sua tristeza em mais uma bela cronica para todos nós e na segunda parte, olha aí a poesia que já virou power point e caso goste posso converter em vídeo prá você mostrar a seus amigos, pois sei que assim será melhor visualizada no Face. Mas como em outros que lhe enviei aguardo sua autorização.
    Meu carinho e admiração de tantos anos,
    Genoveva

    1. Genoveva, boa noite.
      Tenho levado os comentários postados aqui para o Facebook da Déa. Mas, considero tua mensagem um marco de algo também bonito que começou a ser gestado aqui. Por isso trarei Déa até aqui.
      Agradeço tua visita e volte sempre, o Viva a Velhice é nosso.
      Um abraço.

      1. Juraci,
        Grata pela atenção e conheci seu Blog quando você compartilhou aqui, as publicações de Déa em 2016 e agora parece que com a partida de Angela Lago vocês duas se aproximaram mais…Gosto muito de acompanhar postagens em Blogs e estarei vez em quando por aqui.
        Aguardo e envio meu abraço,
        Genô

  4. Genoveva, você tem a minha autorização. Irei amar o vídeo e publicarei no face e tb peço à Juraci que é uma linda mulher para publicar junto com o texto.
    Você sabe o quanto gosto de você. Estou passando por alguns perrengues, mas tudo vai melhorar. Com certeza. Gratidão. Genô. Abraços de luz para você.

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