Educação precária, gargalo brasileiro. Mudar é urgente

Há no Brasil, em geral, uma visão no mínimo equivocada sobre as prioridades do país. Não adianta advogar em prol do aumento da produtividade, sem que se privilegie primeiro a educação.

Comentário do Blog: Porque estou falando de educação? Por um motivo fundamental para o sociedade: é a educação o motor do conhecimento, da formação de valores fundamentais para aprendermos a envelhecer sem preconceitos, sem estereótipos, com alimentação saudável, com um sentido de vida,  com movimento físico, social e mental a fim de que tenhamos o verdadeiro envelhecimento ativo. Tratar “o envelhecimento”  como advérbio de modo, ou seja: o modo de envelhecer.

Os dados da educação brasileira são estarrecedores, todos sabem. Largamente conhecidos, há séculos, são tratados com indiferença pela grande maioria dos políticos, dos empresários e mesmo entre formadores de opinião no país. Há um certo cansaço diante do tanto que se fala a respeito do assunto e o pouco que se faz para melhorar a qualidade do ensino.

Há anos, as avaliações mostram a piora no desempenho dos alunos dos ensinos fundamental e secundário nas três disciplinas consideradas básicas: matemática, ciências e leitura/redação. Os resultados das provas do ENEM não são animadores. A média das notas é baixa, confirmando uma realidade que resiste a ser enfrentada.

O Enem é um teste feito com alunos das escolas públicas e privadas, cujo resultado só pode ser comparado internamente, ou seja, compara-se o mais ou menos com o ruim.

Quando o nível de aprendizado brasileiro é confrontado com o de outros países, a diferença é gritante. No último PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, coordenado pela OCDE), realizado em 2015 e divulgado no ano passado, os alunos brasileiros avaliados (entre 15 anos e três meses de idade e 16 anos e dois meses de idade) revelaram um grau de ignorância inaceitável: nada menos do que 56,6% dos que participaram do teste de ciências ficaram abaixo do nível básico de proficiência (mínimo considerado como satisfatório), 50,99% não alcançaram o padrão básico no quesito leitura e, pior, 70,25% dos estudantes não conseguiram atingir sequer o desempenho básico no teste de matemática.

A continuar naquele passo, o futuro promete um quadro ainda mais sombrio.

O World Development Report de 2018 do Banco Mundial, divulgado recentemente em Washington, foi dedicado à educação: “Learning to Realize Education’s Promise” (Aprendendo a Concretizar a Promessa da Educação). Chama atenção para a urgência dos países alocarem recursos no ensino básico, diante do progresso da tecnologia e da chamada sociedade digital. A tendência é a perda maciça de empregos em favor de alternativas de uso tecnológico intensivo.

No Brasil, a situação já seria dramática mesmo na hipótese do quadro improvável da estagnação tecnológica. Com o ingresso de cada vez menos jovens no mercado de trabalho em consequência do estreitamento da base da pirâmide demográfica, o aumento da produtividade ganha ainda maior importância se o país quiser crescer a taxas de 2% a 3% ao ano.

Paradoxalmente, apesar das perspectivas diante do país, a educação não é valorizada. “Muito embora as habilidades dos brasileiros de 15 anos de idade tenham melhorado, mantida a taxa atual de avanço eles não alcançarão a média do resultado dos países ricos em matemática nos próximos 75 anos. Em leitura, serão necessários mais de 260 anos (para alcançar o desempenho dos ricos)”, diz o report do Banco Mundial. Acesse o link: https://openknowledge.worldbank.org

Nos últimos 25 anos, os 25 países que mais investiram em capital humano apresentaram na média anual uma diferença na taxa de crescimento equivalente a 1,25% do PIB, quando comparados aos 25 países que menos aplicaram em capital humano.

A rigor, o Banco Mundial deu uma guinada na abordagem do que considera prioritário para o desenvolvimento. Até aqui, seus empréstimos e assessoria davam ênfase aos investimentos em infra-estrutura, mas a política mudou este ano. A inversão em capital humano passou a ser a prioridade número um. Os discursos do presidente Jim Yong Kim têm reforçado a mudança.

Coreano, nascido em 1959 quando seu país era tão pobre a ponto da taxa de alfabetização não chegar a 20%, Yong Kim está convencido de que só a melhoria do aprendizado pode atender as aspirações dos jovens em um mundo cada vez mais competitivo.

Vale lembrar que o avanço econômico da Coreia do Sul a partir do final dos anos 70 foi resultado de um grande investimento e da mobilização de toda a sociedade em prol de uma educação de qualidade, com constante aperfeiçoamento e valorização dos professores.

Mas nem tudo é ruim no Brasil. O Ceará é um caso bem sucedido e prova que a melhoria do ensino depende de decisão política.

Em 2004, a Assembléia Legislativa do Ceará criou um comitê (do qual participava também a Unicef, instituições cearenses ligadas à educação e o MEC) para avaliar a situação do ensino, com foco na eliminação do analfabetismo. Dali surgiu o PAIC (Programa de Aprendizagem na Idade Certa), que foi assumido em 2007 pelo governo do estado na forma de política pública prioritária.

Um grande pacto foi celebrado entre o governador e os prefeitos que assumiram o compromisso com a execução das propostas do PAIC, especialmente com a formação continuada dos professores e o apoio à gestão escolar.

Inicialmente centrado no ensino até o 2º ano do curso fundamental, o PAIC foi ampliado em 2011 até o 5º ano do ensino fundamental, abrangendo as escolas públicas nos 184 municípios cearenses. Em 2015, o programa englobou o ensino do 6º ao 9º ano. Os estudantes cearenses têm frequentemente melhorado suas posições nos testes de avaliação, com as escolas do estado se destacando entre as melhores do país.

Não à toa, com certeza, dos 140 estudantes selecionados em 2016 no vestibular do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), o maior número de aprovados, envolvendo 61 candidatos, fez as provas em Fortaleza. Em segundo lugar aparece São José dos Campos, sede do ITA, com 39 aprovados.

De nada serve bater na tecla do aumento do investimento, se a qualidade da educação não melhorar. Nem reclamar da falta de segurança pública, sem que o padrão do ensino seja aprimorado. Muito menos clamar pelo aumento da renda média e sua melhor distribuição, sem considerar que isso depende do bom desempenho no aprendizado escolar.

Fonte: http://www.cincomunicacao.com.br/educacao-precaria-gargalo-brasileiro/#more-1973

por Maria Clara R. M. do Prado  (publicado no Valor Econômico em 31/10/2017)

Comunicação inteligente Blog da Maria Clara R. M. do Prado em 1º/11/2017

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