Solidão não é “obrigatória” na velhice

O homem é um ser essencialmente social, por isso acreditamos que a vida em grupo apresente mais vantagem para o ser humano.

Comentário do Blog: Uma conversa/texto muito agradável da professora Elisandra enriquecido com uma curta entrevista com o Dr. Diego Bernardini completam com leveza e praticidade o tema solidão. Vale a pena ler e ouvir.

Para o alcance de uma velhice bem-sucedida é muito importante tomar algumas medidas preventivas e munir-se de informações sobre essa etapa da vida. Não que o envelhecimento seja necessariamente acompanhado de perdas, nem de doenças e afastamento social, é que além de podermos cuidar da saúde física também podemos cuidar da saúde mental para viver com satisfação e equilíbrio essa fase da vida.

Quando nos referimos à solidão na velhice, podemos perguntar: porque na “velhice”? A solidão na velhice seria diferente da solidão em outra fase da vida? Ao longo da vida estamos expostos a eventos positivos e negativos que concorrem para que possamos experimentar solidão em algum momento.

O homem é um ser um ser essencialmente social, por isso acreditamos que a vida em grupo apresente mais vantagem para o ser humano.

No entanto, em todo o nosso curso de vida existem diferentes formas de sentir solidão, bem como maneiras de afastá-la ou de conviver com ela. Assim, a idade em que esse sentimento pode ser experimentado também não é determinada.

O termo solidão é definido como o estado de “estar só” ou a condição de “ser só”. Refere-se a um estado emocional que inclui isolamento, tristeza, apatia, insatisfação na vida, o qual é provocado pela ausência de contatos e relacionamentos importantes, agradáveis e significativos. Muito mais importante do que estar fisicamente sozinha (o) é o estado emocional de estar privada (o) de um ou vários relacionamentos que gostaria de ter. Dessa forma, a solidão pode se caracterizar por experiências de isolamento social, de isolamento emocional, ou ambas ao mesmo tempo.

A experiência de isolamento social significa a diminuição de relacionamentos significativos e satisfatórios, a qualidade dos vários tipos de relacionamentos que a pessoa pode ter, como por exemplo, relacionamentos superficiais ou íntimos, com amigos antigos ou recentes, com colegas de trabalho, com vizinhos ou parentes. O isolamento emocional diz respeito ao modo como as pessoas se sentem em relação a elas mesmas, com os relacionamentos que têm.

Podemos sentir solidão emocional por não ter pessoas com as quais se esteja emocionalmente comprometido, pela perda de amigos íntimos ou confidentes. Entretanto, viver só, ou ser socialmente isolado, não significa sentir solidão. Entretanto, viver só, ou ser socialmente isolado, não significa sentir solidão e também pessoas com recursos pessoais, psicológicos, tais como saúde – o que faz manter a autonomia e independência – uma rede satisfatória de amigos ou o envolvimento em atividades produtivas e de lazer também experimentam a solidão.

Cinema – A solidão é tema bastante explorado em filmes, músicas, poemas, romances, novelas, e na filosofia, sendo fonte de inspiração para a descrição de sentimentos. Como podemos ouvir na música “Solidão” da cantora Sandra de Sá; na música “La Solitudine” da Laura Pausini; e em filmes tais como: “As Pontes de Madison”, de Clint Eastwood, EUA, 1995; “Coisas que você deve dizer somente de olhar para ela” de Beth Andalaft, EUA, 2001; e “Naufrago” de Robert Zmeckis, EUA, 2000. Refletir sobre a solidão leva à busca das origens desse sentimento.

Filosofia – Na filosofia, a dimensão de solidão pode-se ver em Platão, em alguns de seus Diálogos, que falam de um certo “demônio” interior, o demônio socrático, não como uma entidade maligna, mas uma voz que ressoa lá no fundo da gente, que sinaliza e alerta, provoca e orienta, sendo ao mesmo tempo graça e provocação. E no livro do Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry, experimentando a solidão do deserto, põe-se a repensar a vida, constatando que o essencial é invisível aos olhos. Todos nós experimentamos, em muitos momentos da vida, esse constante ir e vir na procura da nossa identidade como na proposto pelo filósofo Sócrates “Homem, conhece-te a ti mesmo!”. Essa é a dimensão positiva da solidão.

Solidão pode ser positiva – Vários psicólogos têm investigado as condições que determinam a solidão e os sentimentos das pessoas que vivem tal circunstância. A solidão é vista por alguns estudiosos como o sentimento que experimentamos em algum momento da vida e que o conjunto de condições da vida moderna que estamos expostos favorecem seu aparecimento. Mudanças nos estilos de vida podem contribuir para a solidão dos idosos.

O aumento do número de mulheres que se tornam independentes porque trabalham e coincide com o adiamento do casamento e a diminuição do número de filhos, maior longevidade das mulheres, a viuvez, mudanças nos arranjos familiares, como divórcios e novos casamentos. Por outro lado, a solidão é vista também como um momento de construção social e como sinal de amadurecimento emocional, representando um conquista associada ao autoconhecimento e à auto-estima.

Quando vemos uma pessoa que mora sozinha, freqüentemente associamos seu estilo de vida a uma vida de solidão. Ficar só é um fenômeno altamente complexo que envolve a capacidade que uma pessoa tem de desenvolver esse sentimento, desde a infância e de solidificá-lo na vida adulta. Diferentes pessoas têm diferentes caminhos de buscar sentido na vida. Estar na companhia de outra pessoa não faz com que se deixe de estar só. Uma pessoa que se sente solitária diz “preciso ver ou conversar com alguém”, ela mesma pode dizer “preciso ficar sozinha para pensar ou refletir”. Isso nos faz lembrar de um antigo provérbio “Antes só do que mal acompanhado”.

Procurar um companheiro apenas para não ficar só ou para ter alguém a seu dispor pode às vezes acarretar mais problemas. Escolhas erradas podem até mesmo provocar afastamento de pessoas queridas, de familiares e dos amigos, o que aumenta as dificuldades.

Filósofos e antropólogos apontam outras dimensões para a experiência de solidão. Para eles o exílio social, o sentimento de abandono e rejeição refere-se à solidão negativa. O encontro consigo mesmo, a tranqüilidade espiritual e religiosa, a introspecção e a revisão de vida significa a solidão existencial. O isolamento para o exercício da criatividade refere-se à solidão positiva.

Muitos artistas se dizem mais criativos quando estão sozinhos com sua arte. A solidão crônica, patológica, refere-se à depressão que leva o indivíduo a algo destrutivo. E a solidão temporária é a experiência de uma transição no curso de vida, uma crise psicossocial ou biológica temporária, como por exemplo, um desemprego, perda de um parente, acidentes, separação conjugal, aposentadoria, saída dos filhos de casa.

Solidão não é experiência obrigatória na velhice – Com base nesses estudos concluímos que não são todos os idosos que sentem solidão, embora seja comum relacionar velhice com solidão, como se fosse uma experiência obrigatória quando as pessoas ficam mais velhas. A solidão não ocorre na velhice mais do que em outro período da vida. A solidão não é um estado natural e permanente nos idosos. O impacto dos eventos de vida sobre uma pessoa depende de sua história, de fatores de personalidade, da manutenção de contatos com os filhos, netos e outros familiares e da existência de amigos.

Atitudes positivas em relação à velhice podem facilitar o bem-estar psicológico nesta fase da vida. Estar satisfeito com a própria vida e procurar desenvolver novos papéis sociais e selecionar metas e relacionamentos de acordo com princípios pessoais, sabendo o que lhe é mais significativo e enriquecedor ajuda a combater a solidão negativa. Apesar de a família representar uma fonte de relacionamento seguro, os idosos preferem contatos sociais com amigos da mesma idade.

É possível envelhecer sem solidão e nem isolamento. Amigos, parentes, vizinhos, têm uma participação importante na prevenção da solidão. Procurar conhecer novas pessoas, fazer novos amigos, pode contribuir para o autoconhecimento e a autodescoberta. Envolver-se em atividades prazerosas, sentir-se útil aumenta o senso de auto-realização. Ter a oportunidade de transmitir conhecimentos e experiências a outras pessoas, buscar novas aberturas de comunicação entre as pessoas, participar de grupos de convivência, favorecendo o aprendizado, resulta em crescimento pessoal.

Caminhos – Procure conscientizar-se de seu papel como cidadão na sociedade, reconhecer seus direitos e deveres. Investir em si mesmo, cuidando da sua saúde física e mental, fazendo exercícios físicos e mentais, cuidando da aparência, melhorando a auto-estima. Se adaptar às mudanças na velhice sem isolar-se, valorizar suas capacidades e potencialidades. Desenvolver a espiritualidade que visa à sabedoria e traz conforto. E saber eleger prioridades, defender sua privacidade e seus pontos de vista. Não há nada de errado em gostar às vezes de estar sozinho em alguns momentos, desde que isso contribua para o seu bem-estar e crescimento pessoal.

Por Elisandra Villela G. Se – Fonaoudióloga pela Faculdade Tereza D’Ávila de Lorena (FATEA/USC); Mestre em Gerontologia pela Faculdade de Educação da UNICAMP e muito mais.   Fonte:www.vyaestelar.com.br/

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