Sonhar, mudar, ousar isto é viver

‘Desafiar-se é ver o que você pode expandir da experiência de viver’

Comentário do Blog: Martha Medeiros foi a entrevistada do Programa 50 mais CBN do dia 13/10/2018. A conversa girou em torno de um texto seu, escrito em 2000. Atualíssimo, porque viver e morrer são pautas permanente do grande tema que se chama Vida. Aqui estão para Você a entrevista e o texto para seu deleite. Em tempo, este texto de Martha já foi atribuído a Pablo Neruda. Leia o texto a conversa gira em torno dele. No link indicado Você será conduzido a conversa de Martha Medeiros com Alexandre Kalache e Débora Freitas.

“A convidada do programa deste sábado é a escritora Martha Medeiros. ‘A gente tem como relevar as chatices diárias e transformar o tédio em alguma coisa mais interessante’, opina. ‘Mas as pessoas estão muito preguiçosas, querendo que a vida sorria para elas de graça. Não é de graça.’

Siga este caminho: https://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/

A Morte Devagar
Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.

Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.

Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.

Nota: Crônica “A Morte Devagar”, publicada por Martha Medeiros no dia 1 de novembro de 2000.

Fonte: cbn.globoradio.globo.com/  Imagem: EME

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *