Um pouco mais de amor, por favor

“Preciso me desapegar de certos livros perigosos, que me ensinaram aterrorizantes lições de liberdade, de revolução e disponibilidade, de respeito e amor pelo outro”

Por  Déa Januzzi em 01/10/2018 

Não tenho talismã nem bola de cristal, afinal, o mundo digital não permite essas quinquilharias. Mas peço: não internem meus sonhos num hospital psiquiátrico. Não aprisionem os meus desejos, quero os meus pesadelos livres, sem censura, sem cortes, sem sangue, sem tortura. Deixem que eles venham na inconsciência da noite, na realidade do dia seguinte. Não convulsionem a minha vida. Não chamem a polícia para prender o meu jeito de ser, deixem que eu fuja para bem longe, de preferência sem malas. Não me privem da minha capacidade de indignação. Por favor, sem camisa de força, sem choque elétrico, sem ditadores, sem soluções prontas, por favor, não entorpeçam os meus sentidos. Não deem choque na minha poesia. Chamem a censura, antes que eu fale demais, antes que eu quebre tudo em volta, principalmente o que não tem mais serventia, mas ocupa espaço no meu ser.

Façam lobotomia para que tudo saia certinho. Chamem os doutores, antes que eu rasgue todas as fotos, antes que eu arranhe minha paz, antes que eu exploda as minhas emoções, antes que incendeie a esperança, que acabe de vez com essa loucura que tomou conta de mim. Deem oportunidades e não conselhos. Arranquem o meu coração, para enterrá-lo entre as flores que acabam de nascer no quintal, com o seguinte epitáfio: aqui jaz uma alma inquieta, errante, que não cabe em nenhuma gaveta, que não pode ser domada, mesmo que o tempo passe, que a velhice esteja ardendo dela. Aqui jaz uma alma decepcionada com um mundo desigual. Aqui jaz uma mulher que não tem rótulos nem receitas de vida e de criar filho, mas que não quer folga, descanso, férias quando a coisa apertar, desandar.

A normalidade é uma doença difícil de curar, porque quer mais, mais e mais, sempre mais do que tem. Ninguém dá sinal verde para uma vida melhor, mas dá palpite, indica o caminho de uma religião que não creio, porque a minha forma de rezar é outra, minha ligação com Deus é do lado de fora dos templos.

Se pudesse, pegaria carona na música de Zé Rodrix & Guarabira, que tem o sugestivo nome de Jesus numa moto. Pediria que Ele me levasse até a Clínica do Amor. Será que ela existe? Na dúvida, vou pedir o endereço para a minha amiga de tranças, lá no alto da montanha. Não sei se ela vai dar, mas vou de carona nessa moto, cantando assim: “Nada no passado/tudo no futuro/espalhando o que já está morto/pro que é vivo crescer/Sob a luz da Lua, mesmo com sol claro/não importa o preço que eu pague/o meu negócio é viver/Eu vou virar a própria mesa/quero uivar numa nova alcateia/vou meter um Marlon Brando nas ideias e sair por aí/pra ser Jesus numa moto/Che Guevara dos acostamentos/Bob Dylan numa antiga foto/ Cassius Clay antes dos tratamentos/John Lennon de outras estradas/easy rider, dúvida e eclipse/São Tomé das letras apagadas/E arcanjo Gabriel sem apocalipse”.

Vou de moto cantando em tom maior “sob a luz da Lua, mesmo com sol claro/preso nesta cela de carne, sangue e ossos”. Ou será que tudo isso ficou pra trás? Está velho e decadente? Que estão querendo pisotear em tudo o que foi conquistado? Que meus ídolos hoje estejam ultrapassados, destituídos de aura, charme e encantamento? Que tenham queimado os meus ídolos em fogueiras contemporâneas. Não hospitalizem os meus sonhos. Não coloquem ideias em asilos. Não joguem a primeira pá de cal em cima da alegria. Não entubem os velhos, em nome de uma longevidade artificial.

De carona nessa moto, vou deixando para trás as paisagens viciadas, os discursos de ódio. Vou me despedindo de jovens que abraçam projetos de morte e não de vida. Vou na direção do vento. Vou levando só cápsulas do tempo, com o DNA de amigos, de sonhos, de bem-estar, de novos projetos. Uma pitada de felicidade, mesmo que passageira, dois dedos de prazer e uma tonelada de alegria para compartilhar.

Antes de pegar carona nessa moto, preciso me desapegar de muitas tralhas, para não dar trabalho a quem fica. Acumuladora de livros, de textos, de jornais velhos, de poesias e quadros, de cartas e bilhetes antigos, de laudas amarelecidas (vocês sabem o que é isso?) e de máquinas de escrever, preciso achar quem queira tanta bobagem. Preciso me desapegar de certos livros perigosos, que me ensinaram aterrorizantes lições de liberdade, de revolução e disponibilidade, de respeito e amor pelo outro.

Antes de pegar carona nessa moto, preciso fazer o meu inventário, um testamento para o meu único filho, e pedir desculpas por ter sido essa mãe sem medidas. O testamento começa assim. Hoje, filho, sou essa mulher partida, dividida, que acorda e vai escrever crônicas, em vez de preparar bolos. Desculpe-me, mas desde o colégio eu gostava de escrever, me emocionava mais com palavras do que com panelas. Nunca prometi viver entre quatro paredes, preparando pratos saborosos, mas você herdou o caderno de receitas de sua avó, Amélia, para que possa fazer a própria alquimia. Viu como foi bom? Hoje, você cozinha tão bem! Prefiro a sua comida à minha. Apresentei para você, filho, as minhas fontes preciosas, além da cozinha de sua avó. A culinária viva, do doutor Alberto Peribanez Gonzalez, de alimentos verdes e vitalizantes. Desde as feiras de orgânicos e os restaurantes de comida natural, até as mil e uma ervas, a construção sustentável, as qualidades do bambu na casa que um dia você vai construir. Apresentei a você o mestre do bambu Lúcio Ventania, o monge japonês Ryotan Tokuda, a comida dos mosteiros zen budistas, a meditação, a imersão na consciência e o calendário Maia de 28 dias. Apresentei a você, filho, o mundo de um futuro que nunca chega.

Ajudei você a conquistar um lugar no século 21, onde os homens podem rir e chorar, cozinhar, cuidar dos filhos, ser parceiros das mulheres. Desculpe-me, filho, mas não tive tempo de deixar a casa tão limpa, de acumular bens materiais, mas ensinei a você a aceitar as diferenças, a respeitar as mulheres, os negros, os índios, o planeta onde mora. Ensinei a você os caminhos da espiritualidade e do sagrado que há em cada um de nós. Desculpe-me, filho, se eduquei você para um mundo que não existe. Se deixo de herança a minha própria loucura.

Nunca prometi dar a você a Lua, mas o ensinei a ter olhos para vê-la e admirá-la, para vasculhar o Universo e conhecer os astros e as constelações. Não se preocupe quando, às vezes, você atravessar a rua e as pessoas estranharem os seus olhos em busca do céu. Se você, por acaso, quiser dançar e cantar sozinho num bar e pedirem que você pare, porque isso não é comum.

Desculpe-me se ensinei a você o mais difícil dos caminhos – o da alma. Desculpe-me se o prendi nas correntes da poesia e da emoção. Se joguei você na arena da esperança e não da competitividade. Desculpe-me, filho, se não falei em capitalismo, mas apenas em cachoeira, mar, permacultura e ecovilas. Se fiz você sonhar com uma mandala de ervas, em fazer o próprio pão. Se apresentei a você o cajado da sabedoria. Se você foi com Manche Maquehu, um índio mapuche, conhecer o Chile e o segredo dos incas. Ele nem está mais entre nós, não é mesmo? Não aguentou ser índio neste mundo.

Desculpe-me por gostar de vinho e de flores, de incenso e amizade. De acupuntura e massagem. Desculpe-me por ser liberal em excesso, de não colocar você em uma forma de bolo. Desculpe-me se eu desandei, se o bolo embolou.

Desculpe-me se não li direito o manual de instrução quando você nasceu. Se não tenho limites nem verdades absolutas. Nunca prometi a você o paraíso, porque também tenho meus desertos. Todo dia ainda tenho que retirar os galhos secos do meu ser, a aridez da vida neste planeta. Mas é escrevendo que denuncio a devastação interior das pessoas, a falta de cuidado com o outro. E repito, mil vezes se for preciso: respeite a sua própria natureza.

Deixo de herança para você o planeta, o barulho do vento e do mar, as florestas ainda não devastadas, a gratuidade da natureza, as nuvens e o cheiro de mato de que você tanto gosta. Mas prometo: vou estar aqui quando você precisar, quando chorar de dor ou quiser compartilhar os seus encantos e desencantos. Como herança, deixo-lhe uma vida semeada, cultivada com frutos e flores, girassóis e cactus, abelhas e mel, rosas e espinhos, naufrágios e tempestades, mas também a calmaria. Um coração de mãe, onde cabe também o fracasso, o que não deu certo, o trem fora do trilho, a pipa perdida num céu de brigadeiro!

Déa Januzzi assina esta coluna quinzenalmente no www.uai.com.br/

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