“A solidão é um presente e você tem que abri-lo mesmo que pareça ruim do lado de fora”

O especialista Fidel Delgado repensa este tabu como uma oportunidade para rever as nossas vidas quando estamos ‘embalados no vácuo’

Sozinhos chegamos à vida e sozinhos nós temos que sair. E entre a gênese e o fim nós vivemos imersos no vórtice da era da comunicação, onde parece impossível permanecer isolado. Não é. A solidão nos acompanha. E em algumas pessoas está enraizada no núcleo e daí não sai. É uma solidão ruim. Aquela que não é a escolhida e chega até nós sem querer.

Pouco é dito sobre isso em tempos de clique rápido. Algo parecido com a morte acontece com a solidão. “As pessoas chegam a conclusões com clichê rápido porque não temos tempo para ir mais fundo”, adverte Fidel Delgado, embora na realidade seja porque é temido e evitado. Por essa razão, o psicólogo clínico e especialista em Psicologia Hospitalar propõe reverter a inércia: ” E se olharmos para ela sem medo e escutarmos para ver o que ela quer nos ensinar?* 

Apenas um “ícone” para entender sua mensagem. “Quando as crianças (e adultos) se assustam, fecham os olhos e se encolhem. «Ao não ver, inventamos, fábulas, teorizamos e, acima de tudo, ficamos quietos; porque se corrermos de olhos fechados, o mais fácil é que nos enredamos e não tiremos nenhuma conclusão.”  Moral: você tem que abrir os olhos. Também para enfrentar a solidão. Sem vitimização.

“Algumas pessoas ficam próximas para fofocar”, lamenta o especialista. Eles querem conhecer experiências aterrorizantes de outras pessoas, para que contribuam mais para fechar os olhos e alimentar os terrores. “Eles não entendem que a solidão é uma experiência que a vida lhe traz, mesmo que você não queira, de modo que você possa dar um passo além e pare de viver encapsulado.” Deixemos de ficar encerrado em medos que progressivamente encolhem e nos apertam até que sejamos “embalados em um vácuo”.

“Muita solidão vem da autoproteção, por estar na defensiva”, diz Delgado. E é pago com a enorme imposto de não respirar e não sentir Reconhece que deixar o envólucro e sair para o vazio tem seus perigos: “Você começa a estar em contato com a vida que se move e com as coisas que acontecem.”

Há pessoas cujo único contato com a vida passa pela tela do celular ou pelo fone de ouvido, “sites que têm uma pequena partícula de vida”. E apesar do fato de que estamos constantemente recebendo estímulos, se tivermos “o a cortina abaixada e o cinto de segurança apertados, não nos moveremos”. A oferta para viver torna-se medo de viver.

O psicólogo clínico Fidel Delgado nos diz é que há solidões que são construídas por cada um. Por exemplo, aquelas pessoas que colocam o mal e o bem fora de sua jurisdição e “quem fica dentro, na defensiva, torna-se mais vulnerável”, culpando o mundo. Faz sentido para você?

Possivelmente sim … mas nos olhos dos outros. Porque muitas vezes, não estamos cientes. “Há certos níveis em que você se encarrega de ser a fonte desse desconforto.”Eles são reconhecidos por este som: O que mal agradecida é Fula, ela não me chamou para ir a este lugar ou que as pessoas sempre abusam de mim … “Sim, bem, você se reunir com os outros para fazer pautas  de lamentos, você acabou de se transformar em uma vítima ambulante”.

Há também culpa externa. Curiosamente, a solidão é encorajada pela mídia que vende anti solidão, diversão, vínculo e entretenimento, adverte o especialista. Seu nicho de mercado são as pessoas que buscam aliviar esse buraco negro. “O que acontece é que tudo que chega pode ser mal reciclado e se tornar prejudicial para você”, diz Delgado, referindo-se àquelas pessoas que fazem “uma coleção de traumas mundiais”.

O psicólogo, com longa experiência em acompanhamento nas unidades paliativas de hospitais, enfatiza justamente a importância do acompanhamento, também na solidão. «Você tem que dizer a essas pessoas que a solidão é um presente. Mas você tem que abri-lo mesmo que pareça ruim do lado de fora”. Se abre, nos dá um momento chave de “lucidez” e descobriremos uma oportunidade de sair de hábitos e rotinas em que estivemos envolvidos.

Nesse sentido, o Telefone da Esperança faz um trabalho “precioso”, reconhece Delgado. Há muitas pessoas que ligam porque não têm ninguém com quem conversar. “Mas, cuidado, a questão chave é onde nós o acompanhamos”, ele insiste. Sempre olhe dentro do presente.

*Incentivado durante  conferência Enfrentando a solidão, organizada organizada pelo  Telefone da Esperança das Ilhas Baleares.  Nota do Blog: O Telefone da Esperança a que se refere o artigo é o equivalente, aqui no Brasil, ao  CVV – Centro de Valorização da Vida – Disque 188.

Em 07/02/2019 Por Mayte Amorós    Fonte:www.elmundo.es/

3 thoughts on ““A solidão é um presente e você tem que abri-lo mesmo que pareça ruim do lado de fora”

  1. A solidão pra mim é uma escolha que faço. Não me causa dor e até, por vezes, é uma companheira agradável. Me permite em silêncio me ouvir um pouco. Reconheço que nem sempre, esse me ouvir, acontece, mas sempre me trás um bem estar.

    1. Bom almoço Severino. Minhas desculpas pela demora em responder.
      Sim, acredito que é mais ou menos por aí. Entretanto, vejo que há uma certa diferença entre o estar só e a solidão. Esta, ás vezes, é uma dor que vai fundo. Gosto desta definição da Wikipedia “Solitude é o estado de privacidade de uma pessoa, não significando, propriamente, estado de solidão. Pode representar o isolamento e a reclusão, voluntários ou impostos, porém não diretamente associados a sofrimento….”
      Fiz uma rápida visita ao sevejocosilva.blogspot.com, mas retornarei. Quando criei o Viva a Velhice o fiz com o objetivo de informar sobre o processo de envelhecimento fundamentado no princípio de que “velhice não é doença”.
      Agradecida pela visita, volte sempre. Abraço.

  2. A existência da solidão como dor, conforne o texto sugere, é ruim e pode desenvolver uma angustia ou até mesmo depressão. Coisa ruim de conviver e lidar. Gosto dela pra um abandono sadio, introspectivo e meditativo. A solidão que aprecio é do bem
    O blog que indiquei está em desuso faz tempo. Tentei ativar mas o impulso foi pouco e nada aconteceu. Vou ler outros artigos do seu site e quem sabe me atreva a dar outras opiniões.
    Obrigado pela atenção.

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