Reflexos, simplesmente reflexos.

O Outro lado por Denise Dantas

Tenho sempre dito para mim mesma e também para os outros, que escrever é uma forma de me organizar interiormente, o que me traz paz face ao que vivencio. Seria uma forma de batizar pensamentos e emoções e, assim, poder reconhecê-los e aceitá-los. Ou seja, uma busca de autoaceitação.

No entanto, isso poderia ser mantido no âmbito do privado, tal como era usual em tempos antigos, quando a forma de escritura em diários pessoais era muito frequentemente utilizada1.

Assim, qual o sentido de publicizar o que escrevo, já que não espero comentários? Se vêm, é bom receber, mas não acho que isso tenha de acontecer, nem fico aguardando tais retornos. Por sinal, eu gosto de ler o que os outros fazem sem a obrigação de me pronunciar, embora algumas poucas vezes o faça, por ter sido pinçado algo mais pessoal em mim.

Tarsila do Amaral Quadro ‘Operários’, de 1933 REPRODUÇÃO WIKIART

Tal clareza, que vinha subterrânea ao longo desse tempo de existência do blog, emergiu agora com uma troca de mensagens com uma amiga da lista de Contatos utilizada para divulgar – com toda a minha irreparável prolixidade – o que revisitei e reorganizei para acesso dos textos durante todo o tempo em que nele escrevo. Retomei, inicialmente, para me lembrar de meu eu já esquecido e, depois, resolvi compartilhar com possíveis “paridades”.

Ao dizer a essa pessoa que Apesar de saber que não escrevo literatura, a companhia no que escrevo me dá conforto. Como se eu participasse mais da humanidade… rsrs… Sou um pouco muito uma “loba da estepe”… rsrs…, ela me respondeu em sintonia empática com o que eu dizia: “Acho que não se deve pensar em fazer literatura, mas sim dar vazão a sentimentos que muitas vezes não são apenas nossos, mas de inúmeras pessoas. Nessa socialização do sentir e do pensar ocorre o encontro, a paridade, não é mesmo?”

Exatamente isso é o outro lado do sentido de escrever no blog! Ser ímpar é necessário, mas não é suficiente, pois estaria negando nossa própria condição humana. E quando se tem, como eu, ao longo da vida, uma desconfortável sensação de não pertença a lugar nenhum, eu termino me acalentando com o encontro que há quando até pessoas desconhecidas compartilham algo que é próprio do ser humano.

PS 1 O blog sinaliza o numero de visitas havidas a cada postagem divulgada e, por isso, sei se ele não morreu e se foi constituída, de alguma forma, uma paridade. Não preciso saber se a pessoa gostou ou não do que leu – a diversidade é o diamante permanentemente lapidável da convivência humana – pois a simples abertura da página já indica que houve tal movimento de paridade. E, evidentemente, não deve haver sequer a preocupação de algum destinatário do meu aviso de postagem em fazer o acesso, dado que eu não gostaria que houvesse uma preocupação em ler, e sim, um desejo, pois muitas vezes a prioridade do tempo da pessoa está necessariamente voltada para outras demandas da vida e não abrir pode advir dessa questão.

PS 2 A pintura de Tarsila de Amaral de certa forma me lembrou que todos somos igualmente operários na construção das nossas vidas singulares e plural.

Postagem Denise: 5/04/2019  Fonte: imparidade.wordpress.com/

Imagem: Reflexos das árvores do Hyde Park, parque no centro de Londres, durante o outono    in www.google.com/

Comentário do Blog: O Viva a Velhice completará cinco anos, daqui a poucos meses. Nasceu com o desejo de troca, mas amadurecendo entendeu que disponibilizar informações com acesso em tempo indeterminado também é uma função social. Tudo com base no princípio de que velhice não é doença e que somos todos cidadãos de direitos e deveres. Guardei com carinho e reproduzi, sem pedir permissão, o texto da Denise Dantas.

Estou nele e dentro dele. Agradecida pelo texto.

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