Premio Goya 2020 – da seleção ao premio

A incrível vida de Benedicta Sánchez, fotógrafa no Brasil, vegetariana aos 17 e vencedora do Goya aos 84.

A atriz estreou no cinema como protagonista do filme ‘O Que Arde’, de Oliver Laxe

 

Benedicta Sánchez, diante do carvalho da Porfía, em San Fiz de Paradela (Lugo).ÓSCAR CORRA

 

 

A porta do elevador de um edifício de Lugo se abre e sai um som de quem arrasta um carrinho de compra e várias bolsas. Benedicta Sánchez (San Fiz de Paradela, Lugo, 84 anos) recusa a ajuda com contundência. Sobe no carro, protesta pelas calças que lhe emprestaram (caem) e relata a angústia que teve após perder seus óculos (os encontrou). No dia anterior chegou ao apartamento de sua filha, Emma Karina Sánchez, depois da meia-noite, após uma tarde de provas para escolher um vestido para a entrega do Prêmio Goya, o evento mais importante do cinema espanhol. No Ano Novo tocou as badaladas para a TVG e, meses antes, dançou uma muñeira (dança popular da Galícia) sobre o tapete vermelho de Cannes. Usa o mesmo macacão que sua personagem em O Que Arde, pelo qual ganhou o prêmio de atriz revelação na noite de sábado, mas aquela Benedicta se parece pouco com esta.

A Benedicta real teria saído correndo para abraçar o filho que volta após anos na cadeia. Também o teria defendido dos outros. A transformação não foi simples. Até que o diretor Oliver Laxe a animou a fazer ioga e ver Mouchette, a Virgem Possuída e A Grande Testemunha, de Robert Bresson. “Ela demorou a assumir a submissão do personagem e que queríamos evocar através da elipse”, diz o cineasta.

Foi Emma Karina Sánchez, a filha de Benedicta, que encorajou sua mãe a ir aos testes. “Procuravam uma mulher com mais de 65 anos e tive o pressentimento de que a escolheriam. Eu a encorajei a fazer teatro no mesmo grupo amador em que estou e sempre fazia as pessoas rirem, se apropriava do roteiro, o fazia seu”, conta enquanto passeia com seus cães por San Fiz de Paradela e sua mãe corre para acariciar o majestoso carvalho da Porfía.

Benedicta fala com as árvores e, quando os teve, com os animais. Assim começou na adolescência a disputa ética interior que a levou a abraçar aos 17 anos seu novo marido e seu vegetarianismo. Aquela vanguarda encontrou poucas saídas na Lugo dos anos cinquenta. O casal emigrou ao Brasil. Lá começa a segunda vida de Benedicta: se torna fotógrafa de casamentos, batizados e comunhões, trabalha em uma livraria especializada em filosofia e vegetarianismo, escala todos os picos do Rio de Janeiro, viaja muito (Turquia, Israel, Jordânia e Grécia, entre outros), se separa de seu marido e conhece aquele que seria o pai de Emma Karina. É feliz em uma tenda de campanha.

Benedicta Sánchez, em um helicóptero no Rio de Janeiro em 1971.

Benedicta Sánchez, em um helicóptero no Rio de Janeiro em 1971.

 

Até que em 1979 retorna a sua origem para enfrentar uma década cruel. A terceira vida. “Foi péssimo, os piores anos de minha existência. Voltei com a ideia de montar um laboratório de fotografia, mas minha mãe e meu irmão não me deixaram fazer nada. Eles me viam como uma fracassada, voltava da América sem dinheiro e com uma filha”, revive a poucos metros da casa que herdou deles e que foi roubada várias vezes.

— Não tem medo de viver sozinha?

— O medo é um sentimento de culpa e falta de curiosidade.

Assim fala Benedicta, salpicando seu relato de frases definitivas e reflexões originais. “Aceito o que a vida me dá”. Se roubam os móveis que trouxe de Valência (a quarta vida) do palheiro, deixa de podar os espinheiros para que os ladrões pensem duas vezes. Se o encanamento de água que abastece a casa quebra, coloca baldes e bacias para recolher a água da chuva. Se uma gineta mata seus gatinhos e lhe parte o coração, se recusa a ter outros animais de estimação. “Eu não quero modificar ou mudar o destino. O que vier, eu admito. Eu me criei no pós-guerra com frio e necessidades. Assim as pessoas são forjadas”.

Foi para Valencia, a quarta vida, para que sua filha estudasse Belas Artes, para sacudir a opressão materno-fraternal e para reencontrar o sol. Ela se matriculou na universidade para idosos e só concordou em retornar à aldeia de Lugo em 2008, após a morte de seu irmão. “Precisei vir para tomar conta da casa”.

Benedicta disputou a categoria de melhor atriz com Pilar Gómez (Adiós), Carmen Arrufat (La inocencia) e Ainhoa Santamaría (Mientras dure la guerra), mas ela não gosta da palavra competir. “Nessa altura da minha vida, o Goya não tira meu sono”, conclui.

Chegamos à quinta vida, a que surgiu após a filmagem de O Que Arde, o filme que usa o silêncio para gritar coisas. Benedicta Sánchez e Amador Arias, o outro protagonista, nunca haviam trabalhado no cinema. Sua relação na tela se constrói ao redor de um fogão à lenha, o vaivém das estações em Os Ancares e uma comunicação feita com elipses e monotonias. Se a Benedicta da ficção e a da vida real têm algo em comum é a simplicidade: “A parafernália não é meu estilo”. De modo que foi à premiação sem renunciar a si mesma. Vestida de Adolfo Domínguez e sem dentes. “Achei que Oliver iria me pedir que colocasse uma dentadura, mas só me pediu que deixasse o cabelo comprido. Quando alguém me propõe cortá-lo, digo que não, que meu cabelo é de Oliver”.

Os atores Amador Arias Mon e Benedicta Sánchez Vila durante o prêmio Goya.

Os atores Amador Arias Mon e Benedicta Sánchez Vila durante o prêmio Goya.
Petros Giannaouris (AP)

OLIVER LAXE: “PERCEBI QUE ERA ESPECIAL”

Oliver Laxe teve quase tantas dúvidas como certezas ao descobrir uma mulher octogenária, cabelos curtos e modos urbanos na fila das aspirantes a coprotagonizar seu terceiro filme, O Que Arde. “Fiquei emocionado por uma mulher de sua idade vir aos testes. Percebi que ela era muito especial, mas também que não tinha uma presença de mulher de aldeia”, diz por telefone.

Tentou outras mulheres da comarca de Os Ancares, onde se passa o filme, até que por fim apostou em Benedicta. “Ela nos oferecia sensibilidade, a possibilidade de trabalhar com ela a nível intelectual e um físico que aguentaria a filmagem. Era questão de modelá-la como atriz”. O cineasta se preocupava que a relação entre Amador, o piromaníaco que sai da prisão, e sua mãe, Benedicta, caísse no trivial. “Eu me assustava em fazer um filme psicológico com uma mãe castradora, outra vez a mulher como culpada de tudo. Queria chegar a algo mais essencial”.

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