Mudanças de hábitos afastam o risco de doenças crônicas

Karla Giacomin, especialista em medicina geriátrica e consultora da OMS (Organização Mundial da Saúde) Emiliano Capozzoli/ Estúdio Folha

40% a 50% da saúde de uma pessoa não dependem de serviços hospitalares nem de médico, mas das condições socioeconômicas e do estilo de vida

Você já parou para pensar qual é o papel das suas escolhas e dos seus hábitos na sua saúde? É bem maior do que imagina. “Muitas pessoas atribuem um peso enorme ao fator genético e à hereditariedade, mas a predisposição genética representa entre 20% e 30% da nossa saúde”, afirma Karla Giacomin, especialista em medicina geriátrica e consultora da OMS (Organização Mundial da Saúde). Segundo a médica, que participou do XIV Fórum da Longevidade Bradesco Seguros, em São Paulo, o peso da idade também é superestimado.

Segundo a especialista, uma pergunta fundamental a se fazer é: comparado a uma pessoa da sua mesma idade e gênero, você diria que a sua saúde hoje é? A resposta, afirma Karla, é o indicador mais potente de saúde que as pessoas podem ter.

“Quem acha que a própria saúde é boa ou muito boa, provavelmente tem uma saúde boa. Quem acha que a saúde está ruim ou muito ruim deve procurar ajuda para reverter isso”, diz.

A segunda questão é: O que você acha que determina sua saúde hoje? Ir ao médico? Se uma pessoa for ao médico quatro vezes por ano, na melhor das hipóteses terá passado quatro horas com ele. “Todas as outras horas estão por conta dela”, diz a especialista.

Isso significa que as escolhas feitas no dia a dia – o que comem, como dormem, como lidam com o estresse, como se relacionam com as outras pessoas – são determinantes para a saúde.

“Na vida da gente não falta informação. Mas, para que eu transforme a minha informação em cuidado, ela tem que gerar algum interesse de transformação e eu tenho que considerar aquele problema um problema meu. Enquanto eu achar que é um problema do outro, eu não mudo nada”, afirma a médica.

Segundo a especialista, na prática, 40% a 50% da nossa saúde não depende do serviço de saúde nem do médico, mas das condições socioeconômicas e do estilo de vida. Isso deixa uma grande margem para mudanças, para que as pessoas assumam essa responsabilidade sobre a própria saúde.

Mas, afinal, o que fazer para ter mais saúde? A ciência comprovou que adotar hábitos mais saudáveis reduz em até 80% a incidência de doenças crônicas, entre elas colesterol alto, hipertensão, problemas cardíacos, diabetes, obesidade e diversos tipos de câncer.

Esse é o foco da Medicina do Estilo de Vida, nova área da medicina que busca tratar as causas das doenças e não apenas medicar os sintomas. Conhecida nos Estados Unidos como Lifestyle Medicine, essa nova abordagem propõe a adoção de hábitos mais saudáveis para prevenir, tratar e até reverter doenças crônicas. Os pilares da Medicina do Estilo de Vida são:

– alimentação balanceada; atividade física regular; controle do estresse; não fumar e controlar o consumo de álcool; sono reparador; relacionamentos saudáveis

A população vai viver mais e pode viver melhor. Mas, para viver melhor, é necessário fazer aquilo que se sabe que é preciso fazer.

Karla propõe, então, responder a quatro questões:

1 – O que você deveria fazer para ter uma vida saudável?
2 – O que você poderia fazer?
3 – O que você faz de fato?

“As pessoas continuam não fazendo aquilo que elas sabem que têm que fazer. Mas não mudar também significa assumir um risco”, afirma Karla.

A quarta questão: O que te impede de fazer o que você sabe que deve fazer? “As pessoas precisam reconhecer quais são as suas desculpas e enfrentá-las. Por mais corrida que seja a vida, se elas não arranjarem tempo para cuidar de si, não vai ter depois.”

A médica afirma que a saúde é criada no contexto do dia a dia e, na meia idade, as pessoas ainda têm 50 anos pela frente para fazer diferente, então, sempre é tempo de mudar.

“Precisamos acordar para a realidade e reconhecer que o envelhecimento faz parte da vida. Se quero chegar bem lá, tenho que começar a fazer a minha parte agora. Ninguém fica velho aos 60 anos. A gente precisa de 60 anos para ficar velho”, diz Karla.

Para colocar mais saúde no dia a dia é importante ir aos poucos, estabelecer metas simples e possíveis e implementar uma de cada vez (veja quadro abaixo).

CORPO E MENTE  Cuidar do equilíbrio emocional e da saúde mental também é fundamental para uma longevidade sustentável. A seguir, alguns pontos importantes.

1 – Seja mais positivo diante da vida. O psicólogo e filósofo israelense Tal Ben-Shahar, um dos maiores especialistas do mundo em Psicologia Positiva, afirma que cerca de 50% das pessoas nascem “enxergando a metade cheia do copo”, ou seja, têm uma tendência a ver o lado bom das coisas. Para aqueles que costumam focar na metade vazia do copo a boa notícia é que podem exercitar um olhar mais positivo para o dia a dia e mudar.

Estudos mostram que as pessoas mais positivas adoecem menos, se recuperam mais rapidamente das doenças e vivem mais. Para exercitar a positividade, Bem-Shahar sugere um exercício simples de prática da gratidão: todas as noites, antes de dormir, eleja três coisas que aconteceram no seu dia e merecem o seu agradecimento. Esse hábito estimula a produção de serotonina, o neurotransmissor do bem-estar, ajuda a relaxar e a dormir melhor.

2 – Aprenda a lidar com o estresse. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o mundo vive uma pandemia de estresse, que prejudica o trabalho, a saúde e desencadeia várias doenças crônicas.

Ben-Shahar defende que o estresse em si não é o problema: a questão é a maneira como as pessoas reagem às situações estressantes e a falta de tempo de recuperação entre esses episódios – fundamental para o equilíbrio físico e mental. Para ajudar a lidar melhor com o estresse o especialista sugere exercícios respiratórios, ioga, meditação, prática regular de atividade física. Se reunir com amigos, estreitar os laços familiares, aumentar o contato com a natureza e viajar sempre que possível também são medidas eficazes.

3 – Valorize os relacionamentos. “Este é o indicador número 1 da felicidade e da saúde: as pessoas que investem em seus relacionamentos são mais saudáveis e mais felizes”, diz o professor, que criou um dos cursos mais populares da história da Universidade de Harvard – de Ciência da Felicidade. Vale todo tipo relacionamento: romântico, familiar, de amizade, profissional… Vale lembrar que esse é um dos pilares da Medicina do Estilo de Vida, ou seja, unanimidade entre os especialistas.

SABER SE REINVENTAR

Karla Giacomin lembra a importância da resiliência para os adultos longevos: a capacidade de lidar com os problemas e se adaptar às mudanças inerentes a essa fase da vida é um aprendizado que deve acompanhar a vida toda.

“A partir do momento que você percebe que não consegue controlar tudo, tem que se colocar diante da vida de uma forma mais positiva. Acredito que não existe fracasso: existe redirecionamento. Você tentou, não deu, vai ter que achar uma outra saída. Precisamos fortalecer essa nossa capacidade.”

E completa falando da necessidade, em todos os momentos da vida, de as pessoas descobrirem um propósito.

“É necessário pensar em que podemos contribuir para esse mundo ser melhor. Pensar no que sabemos e como fazer para compartilhar isso com as outras pessoas, nos doando um pouco É isso que nos faz achar sentido para a vida. Afinal, Estamos vivos para quê?”

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