Pelo direito de envelhecer: racismo e população negra

Alexandre da Silva, Professor adjunto do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ), Jundiaí, SP, Brasil.

Kenio Costa de Lima, Editor da Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia e professor titular na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN, Brasil.

Alexandre da Silva é doutor em Saúde Pública e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ) trabalhando com as temáticas do racismo e envelhecimento. O referido professor é membro do grupo de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva da ABRASCO.

 

No editorial “O envelhecimento na perspectiva do racismo e de outras formas de discriminação: influências dos determinantes institucionais e estruturais para a vida das pessoas idosas” publicado na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia (vol. 22, no. 4), autor chama a atenção para as iniquidades raciais presentes na vida das pessoas negras que, muitas vezes, impossibilitam a chegada até os 60 anos de idade, que é um conceito amplamente utilizado para definir uma pessoa como idosa. O texto mostra como injustiças são naturalizadas em nosso país por meio de práticas no campo da política, dos serviços, pelas instituições e, considerando o impacto do racismo, repercutindo na dificuldade da população negra em envelhecer com dignidade, justiça e dentro das recomendações para o envelhecimento ativo.

O ponto focal da conversa foi pautado acerca das desigualdades raciais, de gênero e sociais no envelhecimento do Centro Internacional da Longevidade.

1. Quanto o racismo é responsável pela menor expectativa de vida do negro?

Muito. É difícil precisar um valor aproximado porque ainda não tivemos no Brasil um estudo cujo foco tenha sido esse. O que se pode afirmar é que a trajetória de uma pessoa negra (preta ou parda) já começa em situação de desigualdade ainda antes de nascer, quando já se observa a qualidade e quantidade das consultas pré-natais de mulheres negras, passando pelas causas de mortalidade na fase jovem e adulta da pessoa negra e, quando todas essas barreiras são ultrapassadas, o envelhecimento não será semelhante ao de outros grupos de idosos.

2. O fato de ser uma pessoa idosa aumenta a percepção do racismo?

Sim, em uma análise que fiz com dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos (artigo em andamento), os idosos pretos tiveram uma maior percepção quando comparado a idosos brancos e até pardos de que a cor da pele e a idade aumentam a discriminação percebida nos locais onde reside. Isso pode gerar diversas repercussões na vida social, no corpo, nos aspectos emocionais, trabalho e aprendizado ao longo da vida.

3. O negro que chega a ser idoso tem as mesmas condições de acessar o sistema de assistência social que os não negros?

Desconheço alguma pesquisa que tenha investigado esse aspecto com maior profundidade. O que posso deduzir é que provavelmente sim, considerando a redução de recursos físicos dos serviços sociais, principalmente em territórios das periferias. Há também a baixa escolaridade dos idosos negros, a insuficiência familiar que reduz o auxílio para a busca desses serviços e, infelizmente, práticas institucionais que invisibilizam as demandas específicas de idosos negros.

4. A diversidade cultural do negro idoso é respeitada na Instituição de Longa Permanência para Idoso (ILPI)?

Na grande maioria das vezes, não. Considerando os perfis das ILPI que costumam receber idosos negros, há muita precariedade na oferta de serviços e de atendimento humanizado e individualizado. Já constatei ILPI que compartilhavam itens pessoais de acordo com o biotipo de residentes. Isso chega a ser violento. Não são espaços promotores do envelhecimento ativo.

5. Os profissionais estão aptos a lidar com pessoas vítimas de racismo a vida inteira, ou a supremacia da branquitude considera a pauta negra vitimista?

Entendo que a maioria não está apta. Tivemos um processo de democratização no qual o racismo foi um dos seus pilares, infelizmente, e não apagou as marcas da escravização no Brasil. Estruturamos uma sociedade e suas instituições com práticas que discriminam o tempo todo (no trabalho, no ensino, na conjugalidade, no lazer e por aí vai). Algumas instituições já avançaram na tentativa de desconstruir práticas racistas e rever o privilégio da branquitude. Mas ainda temos muito o que mudar, pois nas posições de tomada de decisão e de gestão da economia, do trabalho, da saúde e da previdência ainda há muitas práticas racistas que se manifestam pela omissão ou redirecionamento de investimento ou de narrativas unilaterais, sem o protagonismo e escuta da voz do idoso negro também. É incorreto e desrespeitoso chamar de “vitimismo” a voz do outro (aqui, o negro) que reivindica seus direitos e oportunidades.

Referências

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Fonte: humanas.blog.scielo.org/blog/2020/06/24/

Sobre o Autor

Alexandre da Silva é professor, pesquisador, gerontólogo e sanitarista. Atua nas áreas da saúde coletiva, gerontologia, fisioterapia, bioestatística, epidemiologia, metodologia científica, reabilitação, saúde do trabalhador, políticas de saúde e saúde da população negra.
E-mail: alexandre.geronto@gmail.com

 

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

SILVA, A. da and LIMA, K. C. de Pelo direito de envelhecer: racismo e população negra [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2020 [viewed 29 June 2020]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2020/06/24/pelo-direito-de-envelhecer-racismo-e-populacao-negra/
Imagem: Mobilização Nacional Pró-Saúde da População Negra 2012.

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