Alimentação

Imagem:A escritora Bee Wilson em sua casa, no Reino Unido

Bee Wilson (Oxford, 46 anos) ampliou sua fama como autora gastronômica com Como aprendemos a comer (Zahar, 2017), livro que recebeu uma menção especial nos prestigiosos André Simon Book Awards. A alimentação e sua história definem seu universo criativo como especialista em ascensão em vários trabalhos. No último deles, The way we eat now (“como comemos atualmente”), a historiadora aborda de maneira profunda e sugestiva as chaves para uma alimentação equilibrada e ao mesmo tempo sustentável, uma exigência que a realidade torna cada vez mais inescapável.

Neste mundo onde os alimentos se transformaram em obras de engenharia, a vida melhorou no mesmo ritmo vertiginoso que a dieta piorou. A tal ponto que a comida —e não a fome— é a principal causa de mortalidade no mundo, segundo a autora. “Sim, é impactante, mas as dietas ruins atualmente causam mais mortes e mais doenças que a fome”, responde Wilson por email de Oxford (Reino Unido). Com isso não nega que “a fome absoluta continue sendo um grande problema” e recorda que quase metade de todas as mortes de crianças menores de cinco anos ainda é causada pela desnutrição. “Isto é dilacerador. A maioria destas mortes por fome está ocorrendo no mundo em desenvolvimento”, acrescenta.

Mas a fome, salienta, “diminuiu enormemente nos últimos 50 anos”. Nesse sentido, aponta que em 1947 metade das pessoas no planeta passava fome, enquanto que atualmente uma em cada nove enfrenta essa situação. Entretanto, busca afinar a mira, “uma em cada cinco mortes atualmente é causada por uma dieta ruim: não uma falta absoluta de alimentos, a não ser os alimentos errados nas quantidades erradas”. Sobre essa evidência, Wilson sustenta que “uma dieta ruim atualmente é um problema ainda maior que a fome”.

“Ou talvez uma melhor maneira de descrever seja dizer que a fome agora tem uma nova cara.” Nela, é possível que as pessoas doentes por uma dieta deficiente não pareçam famintas, porque muitas delas têm sobrepeso ou são obesas, “mas continua sendo uma espécie de fome, porque seus alimentos não dão a seus organismos o que eles necessitam para sobreviver e crescer bem”. Para a autora, “a definição de comida é algo que sustenta a vida”, e “quando a comida deixa de sustentar a vida, deixa de ser comida”.

Wilson esteve a ponto de intitular seu livro “O paradoxo alimentar”, por causa da perda de perspectiva da importância da comida para a vida. Sente que a maneira como comemos é um dos maiores paradoxos do nosso tempo. “A vida moderna é melhor e mais fácil que em qualquer outro momento da história, mas esta nova riqueza e comodidade vieram acompanhadas de uma grande quantidade de novos alimentos ultraprocessados e um aumento de doenças relacionadas à dieta em uma escala como nunca se viu”, lamenta. As pessoas se desconectaram da origem dos alimentos, algo que, segundo ela, não teria ocorrido no passado, quando “ter uma ‘boa vida’ significava comer bem”.

Naquela época os pobres eram magros, e os ricos, gordos. Mas agora os termos se inverteram: “Nos países ricos, é caro comer uma dieta saudável rica em verduras, peixe e grãos integrais”. Essa realidade reconfigurou aquele paradigma gráfico. “Sabemos que a obesidade é algo que afeta desproporcionalmente as pessoas de baixa renda. Isto não é surpreendente se considerarmos que os mantimentos mais baratos tendem a ser ultraprocessados, com alto conteúdo de óleos, açúcares e amidos baratos. Os estudos científicos demonstraram que consumir esses alimentos leva a comer em excesso e a ganhar peso”, constata.

Imagem: http://Dieta mediterrânea:          Fonte: brasil.elpais.com/cultura/2020-07-15/

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *